Meu divórcio com a Nintendo

Nos vindouros do ano de 2014, eu estava entediado com os modernos jogos que possuía para o 360. Eu achava a modelagem muito “plástica”, a narrativa muito dramática e as mecânicas pouco fluídas. Na verdade, o que tinha vontade mesmo era voltar a jogar os bons e velhos “plataforms”, e isso me levou a emulação de SNES e depois a adquirir o 3DS, meu primeiro console da Nintendo. Depois disso foi uma relação de amor e ódio, um relacionamento conturbado. Hoje, 4 anos depois de hype, jogatinas e muito dinheiro investido, estou me divorciando da gigante japonesa.

Na verdade, não sei por que comecei este namoro, no fim das contas. Eu sempre fui mais atraído pela Sega, e fui fanático pelo Sonic durante minha infância. O Sonic nada mais era do que o “anti-nintendo” incorporado: rápido, estiloso, cara de mal, músicas puxadas para o pop dançante e afastamento de referências à infância. Depois fui para o saudoso Playstation, o que considero hoje o melhor console da minha vida e onde aprendia a conhecer vídeo game, digamos, de forma mais profunda. Eu nunca fui um grande entusiasta da Nintendo. Porém meu tédio me levou a ela, e como todos os iniciantes, me apaixonei e defendi, ferrenhamente, todos os seus caprichos. Fui o que chamam de nintendista. Mas o amor aqui, não é recíproco.

Relacionamento sem sal.

Os jogos da franquia Mario e Zelda, são, em sua grande maioria, grandes jogos! São divertidos, bem construídos, criativos, e quase sempre fazem escola. Normalmente são o que puxa as vendas dos consoles da Nintendo, e o grande orgulho de qualquer fã. Deles eu não me arrependo, mas nenhum deles conseguiu marcar minha vida. Lembro das conversas que tinha com meus amigos de TI de uma empresa em que trabalhei em Mogi das Cruzes. Um deles, chamado Artur, costumava dizer que os jogos eram classificados em ruim, medio, bom/ótimo e os jogos que mudam sua vida. Existem, é claro, poucos que podem ser colocados nesta última categoria. Os jogos da Nintendo, infelizmente, não conseguiram. Um dos principais motivos, para mim, é a fraca narrativa e a fraca possibilidade de imersão. Para mim, os jogos devem proporcionar experiências tão ricas quanto livros e filmes. Como sou amante também da boa literatura, gosto do impacto na vida que essas obras podem fazer. Os jogos da Nintendo, a não ser que você seja uma criança ou pré-adolescente, não causam esse impacto.

Foco na nostalgia.

A Nintendo foi dominante no mercado de games durante os anos 80 e grande parte dos anos 90, dividindo seu espaço com a Sega a partir de 92 e praticamente perdendo o domínio com a chegada da Sony. Muitos adultos de hoje foram crianças nesse período, e sua primeira experiência com games foi com a Nintendo. Ela, obviamente, sabe disso e investe pesado em experiências que fazem remissão a essa época. Isso é até bacana, mas impede que novas experiências venham a tona. Ficar apegado ao passado é bem tranquilizante muitas vezes, mas chega uma hora que cansamos um pouco de mídias que fazem muita referência a elementos infantis. Mundos coloridinhos, personagens fofinhos – isso aos poucos vai ficando sem graça.

Não consigo mais me identificar…

As grandes franquias da Nintendo gostam de apelar para o público infantil, mesmo sabendo que são consumidas por adultos também. Para poder manter esse leque de segmentos, ela abre mão de abordar temas e narrativas que não sejam adequadas para pessoas muito jovens. Isso acontece bastante em Pokémon, por exemplo. O tema, basicamente, gira em torno de uma criança que viaja o mundo em busca de monstrinhos com poderes para assim, se tornar um grande treinador e de quebra, derrotar uma grande ameaça. A sistemática do mundo, porém, é tão utópica que, as vezes, é difícil acreditar que existe uma ameaça. Em qualquer lugar que você vai todo mundo é amistoso e amável, e os diálogos sempre giram em torno de “como devemos amar nossos amiguinhos”, e como somos felizes com os “nossos amiguinhos”, como o mundo é lindo e como todos são felizes. Não sei, talvez eu seja um chato pessimista/niilista, mas não consigo mais engolir essa dinâmica. Por conta disso que não caí nesse recente hype do Pokémon do Switch. E olha que já gastei horrores com a franquia…

A inovação…

A Nintendo gosta de investir em “novos modos de jogar”. Foi a grande percursora dos motion controllers, e anda investindo agora nos brinquedos interativos de papelão. Eu sempre encarei jogos como uma atividade intelectual, e sou avesso a esportes e coisas que fazem o corpo se mexer. Não sei como não sou um sedentário obeso rs. Era extremamente frustrante ver nos encartes de jogos que eu precisava usar os “motion controlllers”. Não consegui finalizar o Zelda Skyward por conta disso. Na época do WiiU eu parei de comprar jogos que não eram compatíveis com o Pro Controller. Eu quase surtei quando vi o tutorial do Mario Odyssey sugerindo utilizar os Joycons como os controles do Wii. Bem, definitivamente não é para mim…

A dificuldade

Ser gamer no Brasil é uma luta. Ser gamer da Nintendo é uma arena de gladiadores! Ela insiste em não investir no BR, amparada por vários argumentos de nintendistas apaixonados. De uma maneira ou de outra, você deve admitir: isso dificulta pra caramba. Primeiro você deve enfrentar os preços astronômicos da galera que importa jogos e acessórios. Caso queira fugir disso, importando por si só, vai pagar menos, mas vai esperar horrores e correr sérios riscos de ficar sem o que você comprou. Se você optar pelo “digital”, precisa de um cartão internacional, precisa verificar se sua bandeira é aceita, precisa de uma plataforma que indique qual o melhor preço em cada país, de acordo com cada cotação. Parece bolsa de valores. Sem contar os malditos IOF e correções de cotações, que podem pipocar no seu cartão de crédito dois meses depois da sua compra, te pegando de surpresa (como aconteceu comigo). Nossa, é muito sofrimento. Sem contar que a empresa não investe em promoções ou facilitação de compra, como as outras empresas fazem.

 O Novo Zelda.

Sim, ele foi o jogo do ano. Sim, foi um excelente jogo. Mas não sei se ele conseguiu passar a experiência de um grande Zelda. Primeiro, a trilha sonora não é memorável, sendo ausente em grande parte da aventura. O mundo aberto é vazio, cheio de NPCs com pouco conteúdo e side quests bem repetitivas e cansativas. Ele pegou mecânica de grandes jogos como Skyrim e The Witcher e apresentou como a grande inovação da indústria. Não colou. A história é xoxa, o sistema de armas é ridículo. Mas não tiro os méritos do game. As mecânicas são excelentes, o sistema de fast travel é muito bom. Mas tudo isso não faz dele a experiência definitiva de Zelda.

A comunidade.

De todos os problemas que o mundo Nintendo tem, acho que esse é o pior. Já é sabido que o público que consome Nintendo está entre 20 e poucos e 30 e poucos anos, alguns chegando aos quarentões. Mas é o grupo mais agressivo, preconceituoso, fanático e tóxico de toda a internet. Parece um culto religioso fundamentalista, e chega a assustar. Toda e qualquer discussão deve enaltecer seus ídolos e suas criações, justificar suas falhas e atacar os “fiéis” de outras religiões. É uma coisa assustadora, de verdade. Já fui expulso de um grupo Nintendista no Facebook simplesmente por colocar a tag Playstation em minha foto de perfil.

Enfim, a Nintendo é uma empresa extremamente competente, que produz obras dignas de serem classificadas como arte; possui uns dos melhores criadores de conteúdo de toda a indústria, e as marcas mais valiosas. Porém, ela possui falhas, e essas falhas estão me deixando bem desanimado e cansado com esse mundo do reino do cogumelo. Por hora, vou encostar meus Switch. Eu iria vende-lo mas vou esperar o desbloqueio. Talvez pegar jogos de graça em um contexto onde o dólar está sendo vendido a R$ 4, seja interessante. Além do mais, nenhum jogo deles conseguiu mudar minha vida a ponto de merecer ser idolatrado, quanto mais ferrar minhas finanças em quase R$ 300. No livro Writing for Dummies deRandy Ingermanson e Peter Economy, eles dizem que um livro marcante é um livro que causa fortes emoções nas pessoas, emoções que se tornam marcantes. Para mim, uma mídia marcante tem que ser muito mais do que apenas divertida.

 

Renan, 34 anos com corpinho de 20. O cara mais bonito do site. Jogador veterano, amante de games Old School e Final Fantasy, trabalho nas horas vagas para poder comprar jogos.

Renan Melo

Renan, 34 anos com corpinho de 20. O cara mais bonito do site. Jogador veterano, amante de games Old School e Final Fantasy, trabalho nas horas vagas para poder comprar jogos.

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