A origem do Fanboyismo: entre o amor e o ódio.

Lembro-me, lá em meados de 1990, como era difícil a vida de gamer.

Primeiro, por que eu era uma criança, e não tinha dinheiro. Meus pais não eram abastados, e como os tempos eram ruins, vídeo game estava longe das prioridades do orçamento. Por conta disso, eu, assim como a maioria dos meus amigos, apenas podíamos ter um console. E nada de jogos! Quem quisesse, teria que recorrer às saudosas locadoras. Que tempos! Por conta dessa restrição (e graças a muita propaganda de uma novata na indústria, querendo tomar a liderança de uma conceituada veterana) era fácil verificar o clima de rivalidade que existia entre os gamers. Você só poderia possui um console até o fim da geração – nada mais óbvio do que defender seu investimento (ou dos seus pais, no caso) com unhas e dentes! Fazia muito sentido.

Eu mesmo tive o saudoso Mega Drive, mas morria de vontade de jogar o belíssimo Donkey Kong e os Mega Man X (além do Mega Man 7, é claro). Obviamente eu guardava esse segredo a sete chaves, e insistia em dizer que o Super Mario World era jogo de criança (oras, eu tinha só 13 anos). Meus amigos donos do Super Nintendo também escondiam seu desejo de jogar os jogos do Sonic, e até rolou um “piratation” do Sonic para o SuperNes. Todo esse contexto foi apelidado de a Guerra dos Consoles, e está divinamente descrito no livro de mesmo nome, do autor Blake J. Harris. Eu, assim como ele, vivemos intensamente essa guerra. Recomendo a leitura.

Agora de volta para o contexto atual, ano de 2018. Vejo no facebook o pessoal disputando qual franquia de qual plataforma possui maior nota no Metacritic, tentando convencer seus amigos de que possui a melhor plataforma, desejando o fracasso da empresa rival e até (pasmem!) ameaçando de morte o amiguinho que discordar dele. Isso em um contexto em que podemos comprar jogos online em promoções. Isso em um contexto em que a maioria de nós (pelo menos os adultos) podemos comprar mais de um console. Graças a facilidades como cupons de desconto, parcelamentos, promoções, Steam – conseguimos ter mais jogos do que tempo para jogar. Algo que não existia em 1990 (em meu Mega Drive eu vivi apenas com Sonic 2 até poder comprar meu Playstation). Então por que tanto ódio?

Esse tipo de comportamento tem um nome: fanboysmo, e seu representante é o famoso fanboy (ou fangirl). Esse indivíduo é alguém que fecha os olhos aos jogos dos consoles que não possui, ou que não é seu preferido. Mas não é só isso – ele cria um sentimento de rancor contra tudo o que não é feito por ou para sua empresa preferida. Ele deturpa sua visão de realidade, e sempre quando alguém critica sua empresa ou franquia preferida, ou dá notas melhores para jogos de outras empresas, é como se existisse uma conspiração! Quantas vezes vocês já não ouviram coisas como “mídia …ista”? Aliás, o “ista” é alcunha para tudo e qualquer coisa. E as redes sociais apenas potencializaram essa onda de guerra. Durante a premiação da Game Awards ou da E3, é uma chuva de memes que chegam a ser até ofensivas. Sem contar dos tóxicos grupos Mil Grau, que até fazem ataques pessoais a quem discorda de sua empresa sagrada. Donde, meus caros, vem tanto ódio?

Eis minha opinião. Parece que tudo começou com os esforços da Sega em tentar tirar os quase 90% de mercado que a Nintendo tinha nos EUA no fim dos anos 80. Para isso, foi feito um esforço de marketing imenso, comandado pelo então executivo da Sega, Tom Kalinske, com objetivo de atiçar a rivalidade entre os fãs das duas empresas. Os comerciais da época eram declaradamente combativos (coisa que no Brasil é proibido por lei), atacando a rival e exaltando as qualidades da Sega e de seus fãs. Inclusive é dessa época a ideia de que Nintendo é coisa de criança. Com isso, estavam formados os dois times e dada a largada para a competição. O fim, todos sabemos, mas para mais detalhes volto a recomendar o genial livro A Guerra dos Consoles. Acontece que o sentimento de fazer parte de um grupo, se identificar com uma comunidade, é algo inerente ao aspecto social do ser humano. Daí a sedução que o fanboysmo exerce nos gamers, principalmente os mais novos e mais solitários. Parece que a todo o tempo a sociedade exige uma posição nossa, exige a escolha do nosso “quadrado”. Esquerdista ou coxinha, corintiano ou palmeirense, roqueiro ou pagodeiro, etc. Ter opiniões fortes e uma etiqueta para mostrar parece o ideal. É ai que acabamos comprando o pacote total para evitar ficar em cima do muro. Mas no fim das contas, tudo isso é ilusão. É bom sim ser eclético. É bom sim ficar em cima do muro. Durante muito tempo da minha vida gamer eu fui auto declarado Nintendista. Chamava jogos como Uncharted de jogos filme, odiava (sem nem jogar) Call of Duty, GTA e Assassins Creed. Acreditava que esses jogos, que sempre vendiam horrores, eram feitos para uma massa inculta e com um gosto por vídeo games primitivo. Como não podem apreciar a arte de um The Legend of Zelda Ocarina of Time ao invés te assaltar bancos em GTA? Só podem ser bárbaros desprivilegiados.

Hoje penso bem diferente, graças aos deuses! Depois que me aventurei na compra de um PS4, consegui abrir meus horizontes para os jogos da Microsoft também, e hoje me sinto privilegiado por poder apreciar os bons jogos de cada plataforma sem desprezar nenhuma outra. Talvez esse tipo de maturidade esteja faltando nas comunidades gamers de hoje. Com tanto discurso de ódio por ai, principalmente ligados a questões de posicionamento político (as eleições vêm ai), o mundo maravilhoso dos vídeo games era para ser o último lugar onde as pessoas vivem se dilacerando por opinião. Era para ser o reduto da diversão e do prazer, não da guerra. Quem sabe um dia o fanboysmo se torne apenas amor pelas franquias e plataformas preferidas, e não ódio a quem pensa diferente. Talvez eu seja um sonhador, como o John Lennon rs. Que tal mais games e menos guerra?

Renan, 34 anos com corpinho de 20. O cara mais bonito do site. Jogador veterano, amante de games Old School e Final Fantasy, trabalho nas horas vagas para poder comprar jogos.

Renan Melo

Renan, 34 anos com corpinho de 20. O cara mais bonito do site. Jogador veterano, amante de games Old School e Final Fantasy, trabalho nas horas vagas para poder comprar jogos.

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