Os riscos e a emoção do mundo pirateiro

Ontem fiquei até as duas horas da manhã “hackeando” um console, após descobrir que existe um aplicativo que faria com que eu baixasse jogos piratas diretamente por ele, sem necessitar do PC, além, é claro, da necessidade de burlar uma recente atualização que reverteria tudo o que já fora feito nele. Durante o dia eu li diversos tutoriais e assisti vários também no youtube. Conversei com pessoas que não conhecia e em apenas poucas horas palavras como “Exploit”, “ux0”, “Kernel” e “Frizila” faziam parte do meu vocabulário. Descobri o que significava trocas de partições, módulos, “flash”, etc. Foram momentos de muita tensão, já que qualquer erro meu poderia por tudo a perder e danificar o console permanentemente. Isso, eles chamam de “Brick”

Muitas pessoas de vários grupos avisaram sobre os perigos dos tutoriais de youtube. “Cada pessoa faz de um jeito”, “cuidado com o pessoal que pula etapas”. Em cada um desses tutoriais sempre vinha o aviso: não me responsabilizo. Foram momentos de tensão. No meio do processo algo deu errado. Um passo seguinte que eu deveria tomar não estava funcionando. Procurei, procurei e não consegui reverte o que fiz. Comecei a sentir ânsia de vomito de tão nervoso. Minhas mãos e testa suavam. Será que eu iria perder o console? Comecei a me arrepender de ter dado início ao processo. “É para aprender a não mexer com essas coisas!”. Afinal de contas, pirataria é errado, certo? Era bom que eu fosse punido daquela maneira.

Mas eu não conseguia me dar por derrotado. A curiosidade falava mais alto, mesmo sabendo que cada passo que eu desse poderia piorar a situação. Procurei pelos erros; chamei em um grupo, cacei algo que pudesse me ajudar e não encontrei nada. Existiam milhares de tutoriais de como fazer, mas nenhum de como desfazer. Se der alguma merda, você está sozinho. Foi ai que comecei a partir para a lógica. Se algo faz isso, outro algo deve fazer aquilo. Apostei em algumas conclusões e mandei bala! É agora ou nunca. Para a minha surpresa, consegui desfazer a merda que fiz e terminar todo o processo. Eu tinha conseguido hackear o console.

No fim, com essa cagada consegui descobrir como muitos dos mecanismos daquele aparelho funcionavam. Era como se eu estivesse dissecando uma pessoa. Pergunte-me, eu instalei algum jogo? Nenhum, nada! Só o processo de ter conseguido burlar aquele sistema e fazer o que os grandes pirateiros faziam, já me deixou satisfeito. Comecei a ajudar outras pessoas pelo whatsapp; comecei a dar dicas e pequenos tutoriais no facebook. Aquela experiência tinha me transformado, de uma hora para outra, em uma autoridade no assunto.

Meu primeiro contato com o mundo hacker foi com o saudoso PSP. Antes deles, nós molecada de periferia comprávamos o console desbloqueado da loja ou pagávamos para alguém fazer. Era comum as perguntas do tipo “Mas o Xbox360 é desbloqueado?”. Era como se fosse um certificado de qualidade para a lojinha de games de Ferraz de Vasconcelos. Eu só veria um jogo original nas minhas mãos uns 10 anos depois de ter meu primeiro console.

Mas com o advento da internet, a informação começou a circular e foi possível nós, moleques pirateiros, fazermos nossa própria pirataria. Kernel aqui, bateria modificada ali, homebrew acolá. Muito do que eu sei sobre informática e equipamentos em geral vem dos pirateiros. Dizem que os cientistas despertavam sua curiosidade desmontando coisas. Nos desmontávamos os consoles. Grupos se formavam, nomes se destacavam. Super gênios escondidos em nicknames com “Theflow”, dedicavam a vida para encontrar falhas de segurança nos sistemas dos vídeo-games. Eram os grandes inimigos das empresas, e heróis dos “Jack Sparrows”. Quando eles se pronunciam no Twitter, o mundo para! Fulano anuncia falha no sistema do Switch. Ele diz que não vai fazer os programas de pirataria, mas a comunidade faz. Cada pequeno grupo, cada célula. Pessoas que passam meses, anos, programando os mais difíceis sistemas, como se fossem pagos por isso. E não são. O sistema que usei ontem em meu hacking era tão seguro, tudo foi feito e pensado para evitar que o console “brickasse”. Eu não sabia disso. Como pode uma pessoa passar tanto tempo pensando em todas as possibilidades e desenvolver algo tão complexo para “entregar” de mão beijada para outras pessoas usufruírem daquilo? O que esse pessoal ganhava com isso?

Uma vez questionei um amigo de TI que dizia que esses heróis do desbloqueio viviam de fama e status. Seus egos eram alimentados pela própria comunidade, que os seguiam como messias. Talvez eles conseguissem empregos pomposos em empresas de tecnologia quando percebiam a capacidade desse pessoal de encontrar falhas e aprender a operar sistemas que os próprios engenheiros demoravam anos para construir. Quantas vezes não vimos notícias de jovens que eram contratados pela Apple, por salários pomposos, após lançarem algum Jailbreak?

Eu nunca fui tão contra a pirataria assim, como já disse em vários momentos. Se não fosse por ela, hoje eu não saberia o que é vídeo-game. Mas acho justo pagar pelas coisas que gostamos, incentivar as boas empresas, os bons criadores de conteúdo. Nunca entrei no mérito da coisa, mesmo por que sempre consumi Animes de animesubs, MP3 de sites de pirataria, filmes e séries baixados por torrente. Porém, com a idade avançando, o cotidiano se tornando cansativo, a responsabilidade aumentando, fiquei preguiçoso para correr atrás dessas artimanhas. É muito mais cômodo ter o game de maneira fácil, sem recorrer a gambiarras. Então pagamos. Tenho uma grande coleção de consoles e jogos originais, principalmente desta e da geração anterior.

Mas algo despertou em mim a curiosidade e ontem metia as mãos no mundo hacking novamente. E foi como um jogo, onde fiquei nervoso, ansioso, desesperado, com medo da derrota, até finalmente, com muito esforço, conseguir fazer a coisa funcionar. Talvez esse sentimento seja mais interessante do que a posse dos jogos ilegais em si. No fim das contas, dos vinte jogos baixados, só iremos jogar dois ou três mesmo. Mas aquela emoção de ter decifrado um enigma, ah! Coisa que talvez só os grandes matemáticos e os pirateiros saibam o que é. Talvez seja isso que move essa comunidade, no fim das contas!

 

Renan, 34 anos com corpinho de 20. O cara mais bonito do site. Jogador veterano, amante de games Old School e Final Fantasy, trabalho nas horas vagas para poder comprar jogos.

Renan Melo

Renan, 34 anos com corpinho de 20. O cara mais bonito do site. Jogador veterano, amante de games Old School e Final Fantasy, trabalho nas horas vagas para poder comprar jogos.

%d blogueiros gostam disto: